Cristina Amorim

……………… Economia e Gestão do setor Saúde ………………

Saúde, ratos e indicadores gerenciais na saúde

A gestão dos serviços de saúde não pode prescindir de indicadores gerenciais. O gestor precisa acompanhar, controlar e assegurar processos e resultados, ou não há gestão de coisa alguma, muito menos do complexo sistema de saúde brasileiro. Os indicadores gerenciais são elementos-chave para controlar processos, resultados e pessoas, servem para subsidiar a decisão, mas a decisão de qualidade depende de muitos outros elementos – um gestor minimamente experiente sabe disso. A hipertrofia desses indicadores os transforma em agentes da ineficácia dos mesmos sistemas que deveriam ajudar a melhorar.

Foucault (pensador francês do final do século XX) alertou que controlar não é trivial, os controles podem ser burlados ou desmontados. Os indicadores de desempenho e resultados são formas de controle poderosas: podem produzir exatamente o solicitado, mas também podem gerar efeitos perversos, até mesmo abaixo do limite ético e legal. A literatura sobre gestão avisa há mais de um século, indicadores devem ser usados com moderação e não substituem (e muito menos produzem) motivação e comprometimento, sem os quais, a casa cai.

Vejamos exemplos de problemas causados pela substituição da gestão em seu sentido amplo por indicadores para controlar os sistemas de saúde. Nos EUA e Reino Unido, o uso de indicadores de resultados e do desempenho dos profissionais produziu distorções (de aumento de custos à redução da motivação dos trabalhadores) e não melhorou a saúde do público atendido. Assim, desde os anos 90, há um movimento para reduzir o uso dessas formas de controle. A íntegra da análise das experiências citadas está no artigo “Pagamento por desempenho: experiências e reflexões”, de Eduardo Perillo e Mª Cristina Amorim, disponível em cristinaamorim.com.br.

No Brasil, problemas com indicadores de resultado na saúde pública datam da campanha de Osvaldo Cruz contra a peste bubônica, no início do século XX. O governo da cidade do Rio de Janeiro passou a pagar por rato recolhido, para incentivar o extermínio do vetor transmissor da doença. Ato contínuo, muitos brasileiros pobres elegeram a criação de ratos (verdadeiros ou falsos) como meio de vida, passaram a “viver de ratos”. A história está em Estratégias públicas no combate à peste bubônica no Rio de Janeiro, de Matheus Silva, e também no filme de 2011, A suprema felicidade, de Arnaldo Jabor.

A Campanha da Fraternidade da Igreja Católica de 2012 elegeu a saúde como tema. Em entrevista à Folha de São Paulo (05/03/2012 – A16), o Arcebispo Metropolitano de São Paulo Dom Odilo Scherer chama atenção para o uso de modelos gerenciais nos hospitais, entre eles, a terceirização, enquanto “a saúde vai muito mal no Brasil”. Os contratos de terceirização dos serviços de saúde entre governo e organizações privadas dependem de indicadores de processos e resultados. De um lado, dinheiro público para agentes privados não pode circular sem controles, de outro, o uso indiscriminado de indicadores como parâmetros na gestão da saúde não garante a saúde do cidadão. Indicadores são sempre parciais, falíveis e podem induzir a severas distorções. Um pesquisador minimamente experiente sabe disso.

A indução de distorções produzidas pelos modelos de gestão demasiadamente dependentes de indicadores não é um detalhe, é o problema que deve ser enfrentado pelos gestores de saúde. Temos que avaliar o quanto não estamos “vivendo de ratos”.

Profª Dra. Maria Cristina Amorim. Prof. Dr. Eduardo Perillo.

Anúncios

Navegação de Post Único

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: