Cristina Amorim

……………… Economia e Gestão do setor Saúde ………………

Do caos urbano à contratação de médicos estrangeiros

Centenas de milhares de pessoas foram às ruas, a tarifa do transporte coletivo foi reduzida em várias cidades, a PEC para limitar os poderes do Ministério Público caiu, a presidente Dilma discursou e reuniu governadores, ministros e prefeitos para acudir às demandas do povo, que ainda continua nas ruas.

Nesse contexto, o ministro da saúde decidiu apressar medida anunciada há meses, a contratação de médicos estrangeiros para trabalhar em regiões que os brasileiros refugam. Por que tanta polêmica em torno de algo como contratação de mais médicos, antiga reinvindicação dos setores que se auto-denominam “militantes” da saúde?

No andor das “revoltas de junho”, há muitos atores no papel de caronas, na pretensão de acossar os adversários ou tornarem-se protagonistas. Vejamos, a oposição é a oposição (mídia, inclusive), objetiva ganhar espaço aproveitando-se da fragilidade do adversário, produz críticas grandiloquentes e não se sente responsável por propostas. Sindicatos com grande potencial de fogo, como o de transporte de carga foram fortalecidos pelo contexto e paralisaram 22 rodovias entre 1 e 2 julho (Valor Econômico, 02/07/2013). Políticos, de olho nas eleições, soltam subsídios irresponsáveis, assinam decretos discutíveis, prometem recursos baseados em receitas hipotéticas.

Contratar médicos estrangeiros, convenhamos, não deveria causar tanta balbúrdia, não fosse o corporativismo organizado das associações médicas e todos os caronas que ajudam a tocar o bumbo. As associações cumprem sua função histórica, defender os interesses dos médicos, entre eles, o salário. Acreditam que o acesso aos médicos estrangeiros permita ao Estado brasileiro menor sensibilidade para aumentar os salários do setor público que, por sua vez, servem de parâmetros aos salários pagos pela inciativa privada. As facções conservadoras, no mundo todo, também tendem a ver o outro, o estrangeiro, como a causa de suas mazelas e pressionam governos por leis hostis aos imigrantes.

A contratação de médicos estrangeiros é meia solução, é claro. A prestação de serviços de saúde não depende apenas do médico. Aplicar algum exame para atestar a qualidade dos profissionais? Preconceitos com nossos vizinhos latino-americanos à parte, por que não? Sempre é possível organizar testes à necessidade do arguidor. Exames não são, e jamais serão, instrumento suficiente para avaliar a qualidade de profissionais, a realidade é muito mais complexa que um conjunto de questões.

Quanto aos brasileiros, por que não atendem às demandas por trabalho em regiões inóspitas, mesmo por remuneração acima da média do mercado? Por que não precisam se sujeitar a tanto, é claro. São profissionais oriundos principalmente de classes sociais que oferecem aos seus filhos outras oportunidades, sem os pesares das periferias urbanas violentas e dos rincões solitários do nosso Brasil continental.

Em “economês”, os médicos que se recusam trabalhar onde não querem são agentes perfeitamente racionais que procuram maximizar a utilidade do salário, comparativamente à desutilidade do trabalho. A chamada “geração Y”, cujo consumo é em grande medida garantido pela renda familiar, quer mais recompensas além do salário – todo responsável por programas de trainee sabe disso muito bem. Se a renda familiar cair (e deve cair nos próximos anos, pois a expectativa de crescimento da economia brasileira não é favorável), é possível que a “geração Y” reveja seus valores, repense a crença que é importante ser feliz no trabalho. Mas o governo tem pressa, a crise política se avizinha, altera as expectativas dos agentes econômicos, assanha a oposição e os caronas.

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