Cristina Amorim

……………… Economia e Gestão do setor Saúde ………………

Mais Médicos – o último round

Após vários enfrentamentos entre governo federal e associações médicas em torno da contratação de profissionais estrangeiros, surge enfim, declaradamente, a causa da guerra: o plano de carreira dos médicos que o governo federal insiste em não instituir. Indignados com a derrota, as associações e alguns ilustres representantes da categoria ainda enfrentam o programa Mais Médicos. A ala enfurecida do movimento, ao hostilizar os médico cubanos, perdeu as estribeiras e envergonhou o Brasil com cenas de xenofobia.

As entidades de classes são fortemente influenciadas pelo funcionalismo público, daí a ênfase à luta pela carreira médica, entenda-se, que o Estado brasileiro estabeleça condições de trabalho e “salário compatível com a dedicação exclusiva” (Mário Scheffer, médico, em entrevista para o Valor, em 6/09/13). As lideranças avaliaram que a proximidade das eleições (estaduais e federal) e a candidatura do Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ao governo de São Paulo criavam as condições ideais para pressionar o governo federal a aprovar o plano de carreira e o “ato médico” (proibição da realização de vários procedimentos aos demais profissionais de saúde). Pegaram carona nas revoltas de junho e soaram as trombetas em defesa da saúde (da profissão) e do mercado de trabalho (deles). Erraram, jogaram mal e não têm estratégia para a retirada da batalha perdida.

As lideranças das entidades médicas, para usar uma expressão do movimento sindical, podem ter perdido o bonde da história – dito de outra forma, não acompanharam as transformações no mundo do trabalho. Lutam pela carreira convencional quando essa forma de organização do trabalho está em extinção, há décadas, mesmo nas organizações multinacionais, que empregam a elite da mão de obra assalariada e ultra-qualificada. Lutam para ampliar o funcionalismo público na saúde, quando um dos graves entraves à implementação do SUS é justamente a massa ingovernável de profissionais. As organizações sociais de saúde e os contratos de gestão não resultaram da sanha neoliberal de governos de ocasião, mas da dificuldade de gestão de pessoas no setor público, condição determinante (ainda que não suficiente) para a oferta de saúde à população.

A democracia é construída também pela ativa participação das organizações sindicais, cuja pauta de reinvindicações, por isso mesmo, não deve se descolar de interesses compartilháveis com parcelas mais amplas da sociedade. Estamos todos de acordo que serviços de qualidade exigem condições de trabalho adequadas, a luta por melhor remuneração para os médicos servidores públicos é legítima, mas a forma escolhida estragou tudo. Permito-me à metáfora e um trocadilho, há algo de pre-freudiano na ação das lideranças sindicais dos médicos: estão magoados por que afinal, o governo federal não lhes deu atenção suficiente (“não houve discussão ampla com as entidades”) e destinou recursos para outros, os estrangeiros. Um surto de ciúmes ao invés da racionalidade da ação política entre atores que disputam o dinheiro público?

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