Cristina Amorim

……………… Economia e Gestão do setor Saúde ………………

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Palestra: “Contribuições da teoria econômica aos serviços de saúde”.

O que a teoria econômica não é.

A teoria econômica não é um espelho da forma como os agentes econômicos se relacionam, o que se chama vulgarmente de “mercado”. Também não é a produção de dados quantitativos relacionados a dinheiro e produção, tais como PIB, taxa de câmbio ou de inflação, rating de crédito, nível de emprego, etc. O mais importante, a teoria econômica não é um mundo de certezas, de leis inexoráveis sobre a melhor maneira de produzir bens e serviços.

A teoria econômica é constituída de hipóteses, conceitos e aconselhamentos não necessariamente concordantes. Para organizar o conhecimento, esse é dividido, com grande dose de arbitrariedade, em escolas ou modelos. Uma, e apenas uma, dessas escolas ou modelos é a teoria neoclássica, e uma de suas vertentes é a teoria microeconômica.

Por vários motivos, a teoria microeconômica transformou-se em saber dominante, mas, tal hegemonia não significa que seja a melhor, ou a mais adequada, relativamente às demais teorias. A imensa maioria dos profissionais de saúde usa a teoria microeconômica e seus instrumentos de análise como se fossem a totalidade do saber econômico e pior, como se lidassem com certezas absolutas e previsões fatais comandadas por um ente fantasioso, e por isso mesmo plenipotenciário, o tal do “mercado”.

O que são economia e teoria econômica.

A economia é o conjunto de agentes, regras formais e informais de qualquer sociedade, que realizam a produção, distribuição e consumo dos bens e serviços. Os agentes econômicos são os consumidores, o Estado, as organizações privadas e governamentais, em níveis nacional e internacional.

A teoria econômica, por sua vez, é a ciência que procura entender o funcionamento da economia. Como as demais ciências modernas (aquelas iniciadas na tradição investigativa de Galileu Galilei), busca compreender e prever para intervir, direcionar, controlar. Como ciência, é, digamos, “usuária” da história, da matemática e estatística, da política, da filosofia e demais humanidades, mas não se confina em quaisquer dessas áreas do conhecimento.

O uso da teoria econômica na prestação de serviços de saúde: conceitos e instrumentos de análise.

O que é um conceito, para que serve, por que precisamos de conceitos.

1 – Valor de uso, valor de troca e produtividade do trabalho.

1.1 – Valor do trabalho: o trabalho humano confere valor para os bens e serviços, a economia é constituída pela troca de trabalho humano na forma mercadoria.

Valor de uso: serve para satisfazer uma necessidade humana.

Valor de troca: alguém produziu para vender, alguém tem necessidade de consumir e dispõe de renda para comprar.

1.2 – Um bem ou serviço é mercadoria quando tem valor de uso e valor de troca, simultaneamente. O valor de uso é condição preliminar para o valor de troca.

1.3 – A produtividade é a capacidade humana de produzir mais mercadorias, relativamente aos custos dos insumos (dinheiro, máquinas, horas trabalhadas, energia, etc.), que se mantêm constantes ou crescem menos do que o produto. Trata-se sempre do aumento da produtividade do trabalho; afirmar que máquinas ou processos são mais produtivos é apenas linguagem figurada.

1.4 – O princípio da divisão do trabalho ou tarefas e a sistematização de processos.

A divisão das tarefas e a sistematização de processos constituem o princípio básico para aumentar a produtividade do trabalho.

Na saúde, muitas atividades não são sistematizáveis, é preciso tomar cuidado com o furor em instaurar processos em situações nas quais esses não são possíveis, seja pelo custo comparativo da não sistematização, seja pela perda da natureza e qualidade do serviço. Porém, não sistematizar o que é possível é desperdício de recursos materiais e humanos. Sem a divisão de tarefas os profissionais não são liberados para as atividades criativas e estratégicas.

Dividir tarefas e instaurar processos não é tarefa simples, exige profissionais capacitados, conhecimento, investimento em horas trabalhadas e em TI.

2 – Inovação: o que é, para que serve, por que investir?

2.1 – Inovação é a criação de novos produtos e/ou processos. Não é tarefa simples caracterizar inovação. Uma forma é classificá-la como radical ou incremental.

A inovação é uma estratégia para aumentar a produtividade do trabalho (que costumamos perceber na forma de redução de custos), criar ou expandir mercado, e por esses meios, aumentar a competitividade das organizações.

A inovação é tão antiga quanto a humanidade, mas coube ao capitalismo compreender a importância de dissemina-la, transformando-a em estratégia privilegiada de desenvolvimento econômico e aumento do lucro. A maior dificuldade do capitalismo não é produzir (produzir valor de uso), mas vender (gerar valor de troca); no caso da inovação, produzir é mais difícil que vender, ainda que vender seja fundamental, para realizar o valor.

2.2 – Estratégias de inovação e competitividade organizacional

Imitadores: copiar processos e/ou serviços de concorrentes ou outros países. Absorver inovações geradas em outras plantas.

Competição espúria: baseada em custos baixos e/ou proteção – comercializar produtos e/ou serviços a preços competitivos por meio de mão-de-obra de baixa qualificação, salários idem, associado a formas institucionais de reserva de mercado.

Inovadores: desenvolver e comercializar inovações.

Competição autêntica: criar mercados e/ou ampliar a participação, obrigando a concorrência a ajustar-se ou deixar o mercado.

A indústria de mat/med tem sido apontada como a origem do aumento dos preços dos serviços de atenção e saúde. Dito de outra forma, a indústria tem conseguido impor seus preços aos demais agentes. Como o consegue? Porque investe volumes maiores de capital, porque lança produtos inovadores e operam como oligopólio, quando comparada com os prestadores e fontes pagadoras.

Como é a inovação dos prestadores e fontes pagadoras? Em processos, em produtos? Quanto da receita é destinada ao financiamento da inovação? Como se dão as inovações nas fontes pagadoras? Por imposição do governo? As práticas de prevenção e promoção, por exemplo, são implementadas por decisão estratégica ou importas pelo governo? Até quando as ações de prevenção e promoção de saúde serão mais baratas do que a hospitalização?

2.3 – Disseminação da inovação

No capitalismo, há um grande potencial de difusão e ao mesmo tempo de elitização do acesso à inovação. Vejamos, temos celulares de última geração, que baratearam muito, mas na cidade de São Paulo há pessoas arrastando carrinhos de mão com sucata, a tecnologia é a da tração humana, característica do período paleolítico, quando a humanidade ainda não domesticara animais para se usa-lo como tração.

2.4 – Inovação e sistematização de processos

A divisão das tarefas e a sistematização de processos são as condições básicas para o investimento em inovação. Aos olhos do consumidor, um serviço ou produto inovador pode “surgir do nada”; de fato, resulta de longo período e investimento para ser lançado no mercado, e não há como conduzir esse tipo de investimento sem o conhecimento detalhado que só os processos controlados oferecem.

Esta mesma sistematização é potencialmente responsável pela redução dos custos de produção e do preço final, disseminando o produto e/ou serviço. É um movimento extraordinariamente importante no setor de saúde, pois leva à ampliação do acesso da população à inovação.

3 – Informação, análise econômica e escolhas no serviço de saúde.

Quais as contribuições da teoria econômica para a prestação dos serviços de saúde? Muitíssimas, é uma aproximação altamente desejável. Selecionei as que me parecem mais urgentes.

3.1 – Comparar escolhas, análises de custo-benefício, ajudar a decidir sobre trade off.

A teoria não é a escolha, é a ordenação de informações para melhorar a qualidade da decisão. Sim, a ordenação dos indicadores não é neutra, necessariamente, daí a importância de conhecer as possibilidades e limites da teoria e seus instrumentos de análise.

Ex.1 – Análise custo-benefício: modelo para avaliar a eficiência econômica global de investimentos. Compara os custos com os benefícios que provavelmente resultarão do investimento. Os limites do uso do modelo são as quantificações dos benefícios e dos custos em pauta, particularmente em análises não estáticas.

Ex.2 – Análise custo-benefício e o princípio de Pareto.

As decisões alocativas deveriam aumentar o bem-estar geral.

3.2 – Apoiar investimento em TI

No século XXI, não é possível organizar informações, sistematizar processos, investir em qualidade sem a utilização de tecnologia da informação (TI). A utilização de TI tanto exige processos anteriores, quanto provoca a sistematização e organização dos mesmos. A decisão sobre o investimento em TI deve prever suporte para estratégias de inovação. A teoria econômica explica porque as organizações retardam o investimento em TI: além dos custos, haverá alterações nas relações de poder.

3. 3 – Apontar caminhos para o futuro.

Identificar os elementos em nível econômico-político e seus movimentos que influenciarão o desempenho das organizações. Por exemplo, o significado e a tendência do investimento em inovação, em sistematização de processos, em conhecimento, etc.

3.4 – Explicar as relações entre a organização e a economia para melhorar a capacidade de decisão.

4 – Economia e ética.

A ética não é um conjunto de normas para aumentar o lucro, um instrumento de marketing, etc.

Em um nível muito preliminar, podemos dizer que ética é a reflexão sobre as conseqüências dos nossos atos relativamente aos outros, à sociedade presente e futura. Dessa reflexão derivamos nossa moral, nosso código de conduta. Por motivos auto-explicativos, é imperativo discutir ética na prestação de serviços de saúde, se é que exista algum setor no qual não seja.

A teoria econômica ortodoxa (que inclui a neoclássica) pauta-se pela ética individualista, segundo a qual, a liberdade é um bem individual. Se cada indivíduo for livre, a sociedade será livre; a liberdade de ação individual é o meio para constituir sociedades livres (naturalmente, há muitas outras visões sobre liberdade…) O capitalismo capturou esse valor, adaptou-o, e passou a defender o livre-mercado e a livre-iniciativa como sinônimo de liberdade. Curiosamente, ao mesmo tempo, também exige do Estado que coíba a liberdade dos agentes concorrentes: tabelas de procedimentos médicos, lei de patentes, etc.

A ética individualista adaptada ao capitalismo é potencialmente perigosa, pode descambar em um vale-tudo, indiferente à desigualdade econômica, por sua vez, fonte de tantos problemas. Não por outro motivo a Constituição Brasileira tem sim, a pretensão de controlar o livre mercado, a livre iniciativa, etc.

Assim, a teoria econômica ajuda a compreender a realidade e a gerir organizações, sugerindo divisão de tarefas, sistematização de processos, investimento em inovação, entre outros, mas não legitima que o tomador de decisão se abstenha das reflexões éticas, da conduta moral e da observância da lei.

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Disciplina de pós-graduação

Em 12/08/09, todas as quartas-feiras, das 16:00 às19:00h, começa a disciplina “Poder e liderança das organizações”, no Programa de Estudos Pós-graduados em Administração da PUC/SP.

Ementa: a liderança como exercício de poder nas organizações.

Cursos, workshops e palestras com Cristina Amorim

Breve aqui informações sobre novos cursos ministrados pela professora Maria Cristina Amorim.

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